Nazeem Muhajarine e Miles Fahlman

Nazeem Muhajarine é epidemiologista social e pesquisador de saúde pública no Departamento de Saúde e Epidemiologia Comunitária da Universidade de Saskatchewan; Miles Fahlman é um médico antropólogo que pesquisou o primeiro surto de SARS..

À medida que a nossa província reabre e começamos a retomar cada vez mais as nossas actividades normais, a simples questão de usar ou não a máscara facial tem recebido reacções contraditórias. Algumas pessoas têm sido rápidas a adoptar esta prática, acreditando que pode ajudar a reduzir o seu risco de contrair ou propagar o vírus; outras pessoas resistem, e outras ainda não acreditam.

As mensagens contraditórias transmitidas pelo sector de saúde pública no início da pandemia não foram de grande ajuda. Contudo, com o tempo, tornou-se cada vez mais evidente que o uso de máscaras faciais reutilizáveis de pano é uma das principais estratégias para manter a pandemia sob controlo, combinado com o distanciamento físico, a lavagem das mãos, e a permanência em casa caso alguém esteja doente. Em resposta disto, surgiu uma enorme indústria artesanal, onde muitas pessoas costuram máscaras em casa e partilham padrões online. Também, um número crescente de retalhistas está a vender máscaras de estilos e cores variadas, promovendo-as como acessórios de moda no “novo normal” do vestuário.

Embora a Autoridade de Saúde de Saskatchewan concorde que o uso de máscaras faciais de pano pode “desempenhar um papel importante” no controlo da propagação do vírus, muito pouco se sabe sobre a amplitude do uso de máscaras em Saskatchewan, quem é mais provável de usar a máscara ou como o uso de máscaras se relaciona com outros comportamentos preventivos.

É aqui onde entra o projecto de estudo dos contornos sociais e COVID-19  (https://spheru.ca/covid-19/phase1.php). Em Saskatchewan, a partir do primeiro dia do plano de Reabertura de Saskatchewan, recolhemos dados de mais de 2.000 habitantes durante os meses de Maio e Junho (oito por cento de zonas rurais, vinte e seis por cento de cidades e vilas médias, dezanove por cento da Regina, e quarenta e sete por cento de Saskatoon). A pesquisa tem uma margem de erro de mais ou menos 3,05 por cento, 19 vezes em 20.

Na pesquisa de Junho, perguntámos: “Nos últimos 7 dias, quando esteve dentro de um edifício (que não fosse a sua casa) onde foi difícil manter o distanciamento social, com que frequência usou a máscara facial”? Dos 1.033 habitantes de Saskatchewan que participaram nesta pesquisa em Junho, 53 disseram não ter estado num espaço fechado, deixando 980 que tinham estado. Destes, 43 por cento disseram que usaram a máscara durante todo ou a maior parte do tempo, 12 por cento parte do tempo, e 44 por cento pouco ou em momento algum. A probabilidade de usar a máscara estava relacionada com o género, a idade e o local onde as pessoas vivem. O uso de máscaras durante todo ou a maior parte do tempo foi mais comum entre as mulheres (46 por cento vs. 36 por cento dos homens); as que têm mais de 65 anos de idade (52 por cento vs. 40 por cento com menos de 50 anos), e as pessoas que vivem em Saskatoon (53 por cento vs. 44 por cento em Regina, 31 por cento em cidades e vilas médias, e 25 por cento em zonas rurais de Saskatchewan).

Estas características descrevem quem é mais propenso a usar a máscara, mas não explicam porquê. Descobrimos que o comportamento das pessoas estava fortemente relacionado com o quão sério pensam que a COVID-19 é, tanto a nível individual como na sua comunidade. Entre aqueles que pensavam que provavelmente ficariam “muito doentes” ou morreriam se fossem infectados, 68 por cento usavam máscara frequentemente, em comparação com apenas 30 por cento daqueles que acreditavam que de maneira alguma ficariam doentes. Sessenta e cinco por cento dos que disseram que a COVID é uma ameaça “muito grande” à saúde da sua comunidade usavam máscaras frequentemente, contra apenas 14 por cento que disseram que a COVID é uma ameaça “muito pequena”.

Sabe-se que as máscaras faciais são mais eficazes para evitar que a pessoa infectada que as usa propague o vírus do que em proteger a pessoa saudável que as usa contra a infecção. Verificámos que este é outro factor associado ao uso de máscaras: Aqueles que estavam muito preocupados que espalhariam o vírus à outros tinham mais do dobro da probabilidade de usar máscaras com frequência, em comparação com aqueles que estavam ligeiramente ou pouco preocupados (49 por cento vs. 23 por cento).

Alguns funcionários da saúde pública expressaram a preocupação de que as pessoas possam pensar que usar a máscara significa que não têm de praticar outros comportamentos preventivos. De facto, descobrimos que aqueles que usam máscara com frequência são mais propensos a reportar outras práticas conhecidas para a prevenção da propagação do vírus. Quando estão em público, quase todos os usuários frequentes de máscaras (91 por cento) mantêm o distanciamento físico durante todo ou a maior parte do tempo; a maioria (84 por cento) lava sempre as mãos depois de estar longe de casa; e pouco mais da metade (54 por cento) tenta sempre evitar tocar a sua cara quando está em público.

A nossa pesquisa mostra que mais da metade dos habitantes de Saskatchewan adoptou a nova prática de usar a máscara facial pelo menos uma parte do tempo. Isto é especialmente verdade para aqueles que acreditam estar em maior risco de contrair doença grave e para aqueles que estão preocupados em transmitir o vírus à outros, aqueles que vivem em regiões com mais casos da COVID-19 e aqueles que vêem o vírus como uma ameaça maior para a sua comunidade. O uso de máscaras não torna as pessoas menos preocupadas com outras práticas saudáveis; pelo contrário, as pessoas que usam máscaras frequentemente são também mais propensas a seguir as recomendações de saúde pública relativas ao distanciamento físico, lavagem das mãos e não tocar a cara.

É importante saber o máximo que pudermos sobre este novo vírus e ter informação específica para ajudar a nossa província e as nossas comunidades. Isto significa ter conhecimento não só de quantos casos existem e onde estão geralmente localizados, mas também o que as pessoas estão a pensar e a fazer. Compreender o que se passa em Saskatchewan relativamente à propagação do coronavírus pode ajudar a todos nós – cidadãos comuns bem como as autoridades de saúde pública – a fazer a nossa parte para manter a pandemia sob controlo.